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Renato Cunha, presidente da NovaBio, destaca imprevisibilidade de mercado e desafios da safra nordestina no Congresso UAPNE 2026

A safra sucroenergética 2025/2026 no Nordeste brasileiro ficará marcada por uma combinação incomum de adversidades: irregularidades climáticas, preços do açúcar abaixo do esperado e uma oferta de etanol que cresceu cerca de 30% acima da demanda. O cenário exigiu dos produtores e usinas uma gestão de custos rigorosa e colocou à prova a resiliência histórica do setor.

É o diagnóstico de Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar-PE e da NovaBio. Ele será palestrante do Congresso UAPNE 2026 no painel Superação dos Desafios Institucionais e Estruturais do Setor Bioenergético Nordestino. Em entrevista ao JornalCana360, ele traçou um panorama franco e detalhado sobre o momento atual da atividade.

Uma safra de surpresas negativas

Segundo Cunha, os desafios deste ciclo foram maiores do que o habitual. As chuvas irregulares comprometeram a produção agrícola, enquanto o mercado de açúcar não respondeu positivamente mesmo diante de fundamentos que, em tese, deveriam sustentar os preços. “Outras influências danificaram o sistema de precificação”, avaliou o executivo.

No caso do etanol, o problema foi ainda mais agudo. O aumento inesperado de oferta — na ordem de 30% — não foi acompanhado por um crescimento equivalente da demanda. O resultado foi uma pressão significativa sobre os preços, que passaram a não remunerar adequadamente os produtores. “A demanda existe, mas a preços baixos, que não remuneram”, sintetizou Cunha.

Resiliência com sequelas

Apesar das dificuldades, o setor não parou. Para Cunha, o segmento dispõe de um mecanismo de autogestão consolidado ao longo de décadas, que permite absorver choques sem uma ruptura total na continuidade das atividades. No entanto, ele ressalta que as cicatrizes deixadas pela safra são relevantes.

O número crescente de empresas em recuperação judicial no Brasil, incluindo no setor sucroenergético, é sintoma de um desalinhamento entre crescimento da produção e comportamento da demanda. Cunha não hesita em nomear o problema: “A gente acostumou-se a vender muito, a comercializar muito, sem uma demanda equilibrada.”

Cotas americanas e o mercado externo

No plano político-comercial, Cunha trouxe uma atualização sobre o chamado “tarifaço” dos Estados Unidos. Com as tarifas atualmente em 10% conforme decisão da Suprema Corte americana, o Nordeste aguarda o anúncio de uma nova cota de importação — que pode chegar a 180 mil toneladas de açúcar.

A cota americana tem papel estratégico para a região. Por conferir alta liquidez — por meio de certificados que isentam tarifas nos Estados Unidos —, ela funciona como um instrumento que estabiliza a precificação e melhora o retorno ao fornecedor de cana, que representa aproximadamente metade da matéria-prima utilizada pelas usinas nordestinas.

Fonte: Jornal Cana

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